TODAS AS CONSTRUÇÕES SÃO MISTAS, UMAS MAIS QUE OUTRAS.

Ao projectar um edifício, não importa qual seja o programa, de imediato a dúvida de como o construir se me levanta. É necessário atender à vontade do projecto, que aos poucos ganha independência e até alguma irreverência, ao programa, ao cliente e tentar adivinhar quem será o construtor.

Construir uma casa utilizando técnicas de construção mistas não é mais fácil do que construir uma unidade fabril.
O pavilhão, sendo um objecto directamente ligado ao fabrico, quase sempre, de peças ou equipamentos novos, tem por si só um aceitação de inovação, de experimentação que indicia a utilização de processos de projectação, tanto na organização do espaço, como na procura de soluções estruturais, como uma maior liberdade expressiva, até porque e quase sempre, o programa e a organização do espaço a isso obrigam.

Na casa a utilização de soluções mistas nem sempre é bem recebida, sobretudo e ao contrário do que habitualmente acontece no pavilhão, porque a imagem ainda instalada em quase todas as mentes é a de: minha casa, meu castelo e, como é sabido, os castelos são feitos de pedra e cal.

Nos meus anos de actividade profissional, fui confrontado com inúmeras situações, para as quais foram solicitados os meus serviços. A resposta a essas situações e programas é, quase sempre condicionada, definida, pelo sítio, pelo relevo, mas sobretudo pelo cliente. Sem a existência de um bom cliente não há estrutura, mista ou não, que resista.
Alguns bons clientes e mesmo clientes bons, permitiram-me a realização, tanto em unidades fabris como em habitações unifamiliares, de algumas estruturas mistas de pequena dimensão e sempre com um carácter experimental.

A utilização de estruturas mistas na minha projectação, não é o ponto de partida para a procura da solução arquitectónica, mas sim o apoio, possível e à mão, de solução para a resolução de alguns problemas, para os quais uma outra solução iria contrariar o espírito, a intenção primeira.

No entanto, a decisão de utilização de algo que não seja o trivial, é de imediato a procura de um mar de problemas, sobretudo na procura de quem faça. Desde os mais directos colaboradores,


com alguns anos de escritório, ao engenheiro projectista e sobretudo ao construtor, surge a dúvida, a interrogação; mas porquê assim, se poderia ser de outro modo, mais fácil (segundo
eles). De repente e por fases, chega a compreensão, o entusiasmo e aquilo que parecia tão complexo, tão irracional, é assimilado por todos como a solução óbvia.
Apesar desta típica e comum boa vontade, somos, às vezes, confrontados com uma enorme falta de meios técnicos, uma falta de rigor que o desenho não permite, resultando em obras ou execução de pormenores menos satisfatórios.

As casas deixam de ser castelos e transformam-se em casas onde as pessoas sobretudo vivem.
As fábricas deixam de ser armazéns e tornam-se áreas de produção onde as pessoas também vivem.
A construção, sobretudo a estrutural mista que habitualmente é à vista, passa a fazer parte da vida diária, da paisagem.

Nos programas com que habitualmente sou confrontado, a solução não é nem pode ser a mesma. A mais valia do acto de projectar é a capacidade de resposta individualizada e personalizada a qualquer problema numa vontade plena de transformação, mesmo que esta seja por si só modesta.



Outubro 2001