Um Edifício na Cidade

A Cidade

As transformações dos centros das nossas cidades são consequência da evolução da nossa sociedade e dos factores que a definem, que a dinamizam.

Aveiro tem sofrido uma transformação na sequência da sua necessária evolução e adaptação às exigências de actualização, de acompanhamento da sua população e das diferentes vivências que esta obriga.

A transformação que hoje se vê e se sente é semelhante à efectuada aquando da abertura da Avenida Dr. Lourenço Peixinho, onde a cidade faz o encontro com o, então, novíssimo meio de transporte que era, e agora volta a ser, o comboio.

Mas Aveiro já não é o Rossio e a Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a arte nova meramente decorativa, a ria e as suas salinas, barcos moliceiros, ovos moles, o mercado do peixe, os azulejos, e as praias ali tão longe, a feira de Março deslocando-se pelo centro da cidade.

Aveiro é Universidade, são Campus, é IP5, é as praias logo ali, a Cerâmica Campos, os túneis, as novas vias, os mercados renovados, o assédio dos hipermercados, a expansão demográfica e a consequente exploração demográfica. É ria com o que resta das salinas, é ovos moles, azulejos quase sempre horríveis, barcos moliceiros prontos para a fotografia carregados de turistas e empurrados pelos seus pequenos motores, é Feira de Março já sem lama, é Teatro Aveirense que voltou a ser teatro, é a Biblioteca do Távora que com a sua elegância se transforma em serviços camarários, é movida, é gente nova desempoeirada cujo horizonte está para lá do além.
A Lourenço Peixinho, vai com ela, não quer ficar a trás, acompanha, transforma-se, adapta-se e até vai ter nova estação.

A memória está lá, o momento já é e será outro.












O Edifício

O terreno que é definido pela Avenida Dr. Lourenço Peixinho, Rua Engº Oudinot e Rua Comandante Rocha e Cunha é charneira da transformação da cidade de Aveiro, que sem virar as costa ao seu centro, cria novas dinâmicas novas tenções que urge resolver.
As construções existentes encontravam-se degradadas, obsoletas, desgarradas no contexto que se vai criando, que inevitavelmente transforma o uso, o valor, as relações.

A sua volumetria faz a relação entre o que é e o que muito em breve será a Avenida Dr. Lourenço Peixinho e o novo sistema viário e urbanístico.

A sua distribuição e organização interna é também isso mesmo, uma transição entre o comércio de Rua, alguns escritórios que ainda privilegiam o eixo central e a habitação urbana de qualidade.

O comércio é tradicional, actual e em contacto directo com o cidadão, é iluminação, é informação, é gosto e vontade, está ali, sempre esteve e estará.

Os espaços para escritórios, independentes e em piso nobre, fazem parte do movimento da cidade, fazem cidade, fornecem serviços pela sua localização e qualidade.

As habitações são casas quase sempre em dois pisos, organizados, acabados, bem acabados, sempre únicos.
A luz, o espaço, a privacidade, o conforto são identidade, dão identidade.

O exterior, pela qualidade é relação lógica do interior e vice-versa.
A elegância, a durabilidade, a cor que é luz, os contrates que são dos materiais e que deles sobressaiam, as relações que são directas mesmo que suaves, discretas, fazem da qualidade morfológica a qualidade da arquitectura que é urbanidade, que é cidade.

A memória está lá, o edifício já é e será outro, melhor bem melhor.



Gaia, 12 de Novembro de 2003



Carlos Castanheira, Arqtº