Lousas, Xistos e Ardósias. Construir com elas

A ardósia como produto natural, tem vindo a ser utilizada na construção vernacular de modo diversificado, aproveitando as suas características de fácil extracção, manuseamento, transformação e sobretudo de impermeabilização.

Sendo um rocha metamórfica de grão fino e estrutura laminar, composta por sílicas, micas e clorites a sua total impermeabilização torna-a num material extraordinariamente resistente às alterações atmosféricas e sobretudo aos fenómenos de fractura ou rotura por absorvessão de humidade e posterior congelamento.

Entre nós são ainda, felizmente, comuns as coberturas, em alguns aglomerados rurais, realizadas com grandes lagetas de forma irregular em ardósia extraída em áreas periféricas.

Onde o único material disponível era ou é a ardósia ou xisto, toda a construção era definida pelas exigências construtivas deste material; paredes, padieiras, soleiras e peitoris e mesmo as divisões de propriedade dos terrenos eram realizadas com grandes lajes extraídas das pedreiras mais próximas.

Os problemas de relação e vedação entre as diferentes partes eram e são sabiamente resolvidas com materiais e técnicas ancestrais. Levantando uma simples telha, mantendo a impermeabilização do telhado, obtinha-se a chaminé necessária a exaustão dos fumos após a sua passagem pelos enchidos.

O que parece à primeira vista uma forma simples ou simplista de resolver um problema; o de o Céu não nos cair em cima, tem sido uma preocupação fundamental desde que o homem começou a raciocinar, resultando numa técnica de construção apurada, racional e sobretudo nada simples, Não sendo, contudo, elaboradas as técnicas de construção são transmitidas de forma empírica de trabalhador em trabalhador num relacionamento natural onde é necessário falar com elas para que elas casem.

Em Portugal, ao contrário do país vizinho, a ardósia é considerada um produto pobre da construção, praticamente sem regulamentação, sendo a sua extracção essencialmente para exportação.

A utilização de ardósia na arquitectura contemporânea, veio revitalizar, não só o material como as técnicas de construção e montagem, que ao contrário do que tem vindo a acontecer em quase todos os países da Europa, tendia a desaparecer em virtude da utilização de materiais de inferior qualidade e nobreza, tantas vezes desapropriados às características invernais de algumas regiões.

Tenho utilizado a ardósia como elemento de cobertura onde me parece indicado, sobretudo na relação com o ambiente e a volumetria adequada. A previsão da sua utilização, implica um estudo cuidadoso da estrutura, sempre de madeira, que a irá suportar pois o seu peso próprio, que é por si só considerável, é aumentado devido ás necessárias sobreposições de lajes que chegam a utilizar o dobro de metros quadrados da metragem real da cobertura.

Como elemento decorativo ou de revestimento, a utilização que tenho feito é diversificada, pois tanto tenho utilizado a ardósia como simples parede exterior que reveste o moderno isolamento a poliestireno, ou como parede portante de estruturas em madeira. No pavimento as lajetas podem esconder o sistema de aquecimento radiante como podem continuar o interior para o exterior, numa procura de continuidade. A suas características permitem também a realização do mais diversificado mobiliário ou equipamento interno como; bancas, tampos e revestimentos de áreas de manuseamento de produtos corrosivos.

As técnicas tradicionais associadas a outros materiais, tais como o zinco, o cobre e mesmo o chumbo, permitem um melhor manuseamento de modo a se atingir uma vedação e melhor adaptação a exigências contemporâneas, atingindo-se uma construção mais técnica e menos sujeita a manutenção.

O resultado é sempre surpreendente, pois apesar de ser um material tradicional, tosco, a sua nobreza, a constante vivacidade, as constantes alterações de luz e brilho, fazem com que a obra pareça sempre actual.

Na sequência da infiltração milenar de água, quase sempre ferruginosa, nas fissuras ou microfissuras resultantes da clivagem natural da sua estrutura laminar, obtém-se um material construtivo e sobretudo decorativo.
As partículas ferruginosas criam superfícies pouco homogéneas, de uma grande riqueza de tons e texturas.
Dependendo do tipo de clivagem sucedida, estas oxidações podem permitir a realização de paredes ou muros ou em alguns casos lajetas para a realização de pavimentos de forma irregular, aproveitando quase integralmente o tamanho destas ou num processo mais industrializado com peças de forma regular que poderão ter dimensões diversificadas.


Toda a pedra é bonita. É necessário sabê-la aplicar no sítio adequado, do modo correcto.



Carlos Castanheira, Arqtº
6 de Março de 2002