CONSTRUIR COM MADEIRA - PORQUE EU GOSTO !

Não utilizo a madeira, em algumas construções que tive e tenho a possibilidade e o privilégio de realizar, por razões de tradição.

É porque gosto! gosto do cheiro; do toque; das cores naturais; da textura; dos veios; dos nós; do pinázio e da couçoeira; do pilar e da viga, da cavilha e da respiga; do formão e da bitola ... e gosto ... de carpinteiros.

Gosto do trabalho deles, do rigor necessário; do pensar antes de cortar; do cortar a pensar, pois não pode emendar; do amaciar da madeira; do segurar da madeira e verificar o desempeno como um jogador de bilhar;

Não é só a construção com madeira que me tem feito pensar porque é que a nossa construção, a portuguesa sobretudo, tem que ser ou é um acto contínuo de construção, demolição, construção ou reconstrução de paredes destruídas, para se esconder aquilo que não se quer ou não se deve ver.

Será que não é possível fazer melhor? será que, cá, em Portugal, é possível fazer melhor? “a nossa construção” para além de se tornar um produto com mão de obra intensiva, parece-me sobretudo irracional !

Tal como construir um móvel, um grande móvel, construir com madeira obriga a prever, pensar, organizar, organizar o pensar; pois todas as infra-estruturas têm que estar previstas e instaladas antes e durante a construção que se torna montagem, onde a montagem é acto racional.
E há também a vantagem que o tosco já é acabado, que o exterior é tantas vezes parte do interior, sem problemas de pontes térmicas obsessivas; que a viga se confunde com o caixilho e o caixilho funciona, também, como viga; o tecto é chão e o chão tecto, assim sem mais nada, desde que aceite, tolerado.

Para além de algumas recuperações ou alterações de coberturas de construções existentes não me foi fácil arranjar maneira de aplicar a madeira nas construções que ia realizando.

Problemas, preconceitos, outros concelhos, tornam difícil, às vezes mesmo impossível, abordar a questão, propor a alternativa, esclarecer que não é assim, não é verdade.

O betão, material dito eterno; a laje aligeirada, garante de não mais se ter problemas; o tijolo; material bem português pois não teve qualquer tipo de evolução no último século; as massas grossas e as finas; a tinta tapa tudo, a tartaruga e a tartaruguinha; os alumínios anodizados e os lacados, as cores naturais e a da casaca de ovo e tantas, tantas coisas mais, criaram uma cultura construtiva onde já não havia lugar ao pensar, “nós fazemos sempre assim, sempre assim fizemos”.

A dificuldade de não fazer sempre assim, não querer fazer sempre assim, não é tarefa fácil! Os engenheiros e seus programas de cálculo; os clientes e suas senhoras; os empreiteiros: “se fosse como é hábito seria muito mais barato”; as lojas de materiais e suas promoções; a ana salazar e os madredeus que, também, vendem azulejos, fazem com que, tantas vezes, a tarefa de projectar seja redutora.

O interesse, cada vez maior, do que há de bem construído em madeira, cá e fora, levou à realização de uma análise. Construções com quinhentos e mais anos, arquitectura moderna dos anos trinta, ambas actuais, quase sempre futuristas, deram força, razão e justificação para prosseguir, experimentar.

A necessidade ou decisão de construir casa própria permitiu realizar algumas das preocupações, dos objectivos que conscientemente e inconscientemente se vinham acumulando neste percurso de fazer arquitectura.

Construir com madeira, pois foi esse o objectivo. Nunca pretendi fazer uma casa de
madeira.

Todas as casas de construção em madeira utilizam, necessariamente; outros materiais. Pedra ou betão nas fundações, ferro em ligações, cerâmica ou metais nas vedações.

A minha casa é assim: betão tudo o que é enterrado e daí para cima madeira, protegida da intempérie por chapa de cobre.

No início parecia difícil. Foi necessário escolher as pessoas, sobretudo os carpinteiros, a madeira, a madeira e seu preço. Com a continuidade, o entusiasmo, também se pegou aos carpinteiros. O tempo não ajudou, apesar de dever ser verão. Este e outros problemas foram ultrapassados. O projecto realizou-se. Está bem, eu gosto, está-se bem.

Outras casas se seguiram, depois de verem a minha, para crer como São Tomé, e outras se seguirão ... porque eu gosto ! e os clientes também ! ... alguns.

Outubro 2001
Carlos Castanheira