Descrição
Costa Grande é um lugar de três casas e uma ruína, nem aldeia é.
De grande só o nome, o acesso através de uma esplendorosa mata de carvalhos, e a encosta sobre o rio Ovil, bem ao fundo.
Na primeira visita a dúvida surgiu: ‘o que é que eu vou fazer destas ruínas, duas, e um espigueiro desconjuntado?’
A paixão, evidente, dos proprietários pelo local e pelo projecto obrigou a uma nova olhadela para ver melhor.
Estranhamente, apesar de serem duas ruínas, a propriedade é só uma e a necessidade de as unir era evidente.
A ruína, a nascente, apresentava melhor estado, numa análise optimista.
A que fica mais a poente eleva-se como uma pequena acrópole. Noutros tempos terá tido diversas funções. Agora ergue-se apenas como um marco de beleza. Deve ficar assim, um espaço interno mas aberto, logo externo.
Os clientes gostaram da ideia. E eu gostei deles.
O programa é simples. A dificuldade encontra-se na resolução da ligação dos dois volumes, a cotas diferentes. A casa devia ser em madeira e permitir o usufruto da paisagem: eis as únicas premissas.
A ruína da acrópole será pátio ou solário, mas também entrada de visitas. No piso térreo ficará a sala, uma pequena cozinha e um sanitário. A norte uma varanda permitirá estar à sombra.
O piso superior será ocupado por uma sala de leitura e permitirá a circulação para o quarto e o banho. Este piso também é térreo.
Uma varanda faz de união entre volumes mas também os separa, permitindo o acesso ao terreno sobre ela.
No espaço onde foi a loja dos animais será criado um pequeno quarto de apoio ou quarto de visitas.
O magnífico aparelho das alvenarias da ruína, a nascente, será recuperado. Sobre ela a estrutura e o revestimento em madeira estendem-se ao volume que penetra na ruína da acrópole.
O novo volume tem base em betão aparente, rude, tosco, como o local, elegante de ruralidade.
As paredes da acrópole, de singular qualidade e estranha pormenorização, fazem-nos adivinhar vários passados. Serão recuperadas. Colocar-se-ão portadas de madeira nas fenestrações.
A casa será quase toda de madeira com estrutura, revestimentos e caixilhos também em madeira, sobre betão e pedra.
As coberturas e impermeabilizações são em folha de cobre.
Os espaços exteriores serão tratados ao longo do tempo. Um pomar já foi plantado. Um jardim de ervas aromáticas se seguirá. A mata, na encosta, será limpa e o acesso pedonal privilegiado. Lugares como este devem ser retirados ao abandono e devolvidos ao prazer do olhar.
O espigueiro, que marca presença à chegada, sem outra função que não seja a da sua existência, estende-se na sua morfologia…
Gaia, 06.05.2009
Carlos Castanheira
Ficha Técnica
Cliente:
Henrique Manuel Oliveira e Silva Ribeiro
Local:
São João de Ovil
Baião, Portugal
Data de Projecto:
Janeiro 2008 / Março 2009
Proj. Arquitectura:
Carlos Castanheira
Carlos Castanheira & Clara Bastai, Arqtos Lda.
Colaboração:
Luís Reis
Isabel Norton
Eliana Sousa
Patrícia Carvalho
João Figueiredo
Susana Oliveira
Estrutura:
Paulo Fidalgo - HDP Gabinete de serviços e projectos de engenharia civil Lda.
Hidráulicas:
Pedro Nunes - Diâmetro & Cálculo Engenharia Lda
Eletricidade:
Luís Matos - Igemáci Engenharia S.A.
Mecânicas:
Raul Bessa - GET - Gestão de Energia Térmica Lda.
Construtor:
Seixas & Coelho - Sociedade de Construção Lda.
Carpintarias:
Carpintaria M.S.P. Lda.
Funilarias:
ASA - António Sousa Alves Lda.